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O que eu me lembro da História da Cirurgia do Joelho no Brasil - Parte I


Prof. Marco Martins Amatuzzi

Primeira Parte
Professor Emérito de Ortopedia e Traumatologia da F.M.U.S.P. e fundador da SBCJ.
Na década de 70, o grande vilão dos problemas do joelho é o menisco, causador de quase todos os sintomas articulares e cujo tratamento é sempre o cirúrgico, com a meniscectomia total e completa.

A preocupação maior dos estudiosos é o aprimoramento diagnóstico para a lesão meniscal, pois o exame clínico nem sempre é elucidativo. Por isto são criados métodos diagnósticos alternativos e dentre eles, a pneumoartrografia contrastada do joelho, exame radiológico adotado no Instituto de Ortopedia e Traumatologia (IOT) do Hospital das Clínicas da FMUSP; sua padronização serve como motivo para agrupar um número considerável de médicos ortopedistas, que se reúne semanalmente à noite, para estudar joelho, constituindo-se no primeiro Clube do Joelho do Brasil e que, dez anos mais tarde, dá origem à Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ).

Este novo método radiológico é de difícil interpretação e, baseado no seu laudo, muitas meniscectomias são justificadas, algumas bem indicadas mas, a maioria delas meniscectomias isoladas, quando a lesão mais importante, a do ligamento cruzado anterior, quase sempre presente, é ignorada. Meniscos retirados em meniscopatias degenerativas, em osteonecrose, em osteoartrose contribuem para o descrédito desta operação, cujos maus resultados então passam a ser estudados, redundando no melhor conhecimento desta importante estrutura e revolucionando os conceitos biomecânicos de então.

O Clube do Joelho era constituído pelos membros do Grupo de Joelho do IOT, criado no dia 5 de agosto de 1971, quando foi separado do Grupo de Pé, chefiado por Manlio Napoli. Seu criador e primeiro chefe foi Marco Amatuzzi e seus membros os médicos Nelson Soares, Luiz Roberto Marczyck, Gilberto Camanho, Arnaldo Zumiotti, José Luiz F. Gouveia Sobrinho, Olavo Padilha e mais tarde José Carlos Berthe, Ricardo Navarro, Sérgio Zuppi e José Carlos Ricci (de saudosa memória), entre outros; faziam parte do Grupo, as fisioterapeutas Ângela Santos e M.Regina Almeida.

A participação de fisioterapeutas no Grupo torna-o interprofissional. Da leitura e discussão de trabalhos científicos surgiram novidades, como, por exemplo o uso da crioterapia na medicina esportiva, que M. Regina e Ângela padronizaram a partir dos ensinamentos adquiridos na Inglaterra quando lá estiveram com o Dr. Ian Smillie, a maior autoridade européia em joelho.

Nas reuniões semanais que ocorrem toda 5ª feira à noite, a literatura é revista e comentada, quando surge o sinal da sub-luxação anterior da tíbia descrito como “pivot shift syndrome” por Galway em 1972 e logo depois descrito por Hughston que, com algumas modificações na maneira de pesquisá-lo, chamou-o “jerk test”. Estes testes constituem o grande passo para o diagnóstico clínico da lesão do LCA; tão eficiente este sinal semiológico que a sua introdução na prática clínica passa até a desestimular o estudo dos métodos radiológicos específicos, usados para a confirmação da lesão do LCA.

Além disto, modificações sugeridas na pesquisa do sinal da gaveta anterior, com o uso da rotação da perna e pé são também importantes no diagnóstico da lesão do LCA e, principalmente, no diagnóstico das lesões associadas.

O ano de 1976 ainda é importante porque Hughston e seu grupo endossam e assim dão credibilidade à classificação das lesões ligamentares agudas feita pela Comissão de Aspectos Médicos dos Esportes da Associação Médica Americana, em sua publicação “Nomenclatura Padrão das Lesões Atléticas”, de 1968, que as divide em três grupos: as do 1º são consideradas leves, porque apresentam rupturas de pequeno número de fibras, com dor localizada e sem instabilidade; as lesões do 2º grupo são denominadas moderadas, porque há ruptura de número maior de fibras com dor mais acentuada e ainda sem instabilidade; e as do 3º são consideradas graves, porque apresentam ruptura total dos ligamentos, com instabilidade presente. Determina também que as lesões leves apresentam á radiografia, obtida sob stress na manobra de adução (varo) ou abdução (valgo) pesquisados em 30o de flexão do joelho, abertura da interlinha articular de até 5mm; as moderadas ou de 2º grau, de 5 a 10mm; e as graves, ou de 3º grau, abertura articular maior do que 10mm. É o que hoje se usa como +, ++ e +++.

Uma vez estabelecidos os parâmetros instabilidade - lesão ligamentar, sua classificação e diagnóstico, os autores passam, a partir de 1977, a se preocupar com o tratamento específico dos diversos tipos de instabilidade crônica.

Assim surgem muitas técnicas de reparação das instabilidades ântero-laterais, já consideradas as mais comuns nos joelhos crônicos, e todas elas realizadas sob o tracto-iliotibial. Dentre elas destacam-se as de Losee & col., 1978, Ellison, 1979, Hughston, 1979 , e Andrews e Sanders,1983, com as quais temos maior experiência.

Na realidade estas técnicas, descritas por autores americanos, nos chegam como pioneiras, mas, no continente europeu já são conhecidas desde 1967. A escola francesa, por exemplo, usa a técnica de Lemaire que, sem dúvida, foi a base de todas as outras.

Em 1979, Marco Amatuzzi que pertencia à Diretoria do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Associação Paulista de Medicina e que realiza anualmente as Jornadas de Ortopedia e Traumatologia do Interior do Estado de Sâo Paulo, convida e traz de Columbus, GA, nos EUA, a maior autoridade americana em Cirurgia do Joelho e Medicina Esportiva, o Dr. Jack C. Hughston que ministra, na XVIII Jornada do Interior do Estado de São Paulo, realizada em Campinas e logo depois no IOT, Cursos de Joelho. Através dos ensinamentos de Hughston, começou-se a realizar, para as instabilidades ântero-laterais crônicas, decorrentes da lesão do LCA, a fixação do trato iliotibial no septo intermuscular lateral da coxa e a transposição distal e anterior do cabo longo do bíceps, técnica que apreciamos até hoje e cujos resultados foram apresentados em 1983, em tese de Livre Docência, com 72% de sucesso.

A vinda de Jack C. Hughston ao Brasil consolida os conceitos até aqui aceitos. As condutas são conferidas e fica a certeza que, em nosso país, estávamos em linha com o que era feito nos maiores centros de cirurgia do joelho do mundo. A repercussão e os vínculos criados pelo grande mestre facilita estágios na Hughston Clinic em Columbus, Georgia a muitos brasileiros. Até hoje muitos de nós periodicamente retornamos a ele ou a seus seguidores.

Nesta ocasião o Clube do Joelho de comum acordo com a Hughston Foundation, manda imprimir em português a mesma ficha de exame clínico que serve de modelo aos ortopedistas do Brasil.

A consolidação da cirurgia do joelho no nosso país é limitada a um pequeno número de cirurgiões que se reúne e estuda joelho em São Paulo; foi quando este mesmo grupo, considerando-se maduro, resolve fundar a Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ) para assim poder divulgar os conhecimentos da nova especialidade que surge, poder estudar para se atualizar e resolver melhor as dúvidas que advinham da prática clínica e poder discutir entre especialistas brasileiros o que a literatura mundial estava mostrando nos resultados obtidos com a aplicação dos novos conceitos
Foi quando o próprio Grupo de Joelho do IOT se pôs a campo para viabilizar o PRIMEIRO SIMPÓSIO BRASILEIRO DE CIRURGIA DO JOELHO realizado em São Paulo, no hotel Maksoud Plaza em junho de 1983. Para isto contou com a parceria preciosa da Merk Sharp & Dohme e de seu Presidente Giancarlo Mantegazza que trazem a S.Paulo os maiores nomes em Ortopedia e Medicina Esportiva do Brasil que, com suas famílias ficaram hospedados conosco, assistem ao Simpósio, apresentam trabalhos e participam da fundação da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho - SBCJ, da aprovação do seu logotipo, dos seus estatutos que, de interessante reza a proibição da cobrança de mensalidades dos sócios, o que é respeitado até hoje e elegem a primeira diretoria. O presidente eleito foi Marco Amatuzzi, que com Gilberto Camanho, Olavo Padilha, Osmar Arbix Camargo e Yoshiki Ohumura, constituem a primeira diretoria que gerou os destinos da SBCJ até 1986 quando foi reeleita para novo mandato, com uma alteração na sua constituição, a entrada de Ricardo Dizioli Navarro no lugar de Osmar Pedro Arbix de Camargo; este segundo mandato dos fundadores foi até 1988.

A SBCJ é a grande responsável pela divulgação da moderna cirurgia do joelho no Brasil, através dos Cursos proferidos em todo o país, dos Congressos que organiza há cada dois anos e pelos estágios que seus sócios pudem realizar no exterior, a partir do conhecimento que tem dos principais especialistas em joelho que, no Brasil estiveram a convite da própria Sociedade, entre os quais lembramos, Jack Hughston, Michael Walsh, James Nicholas, Henri Dejour, James Andrews, Lamberto Peruggia, J.H. Aubriot, Glenn Terry, Albert Trillat e Carlos Uribe.

O Clube do Joelho de São Paulo continuou a se reunir semanalmente até 1981, portanto por dez anos. O Grupo de Joelho do IOT, pioneiro no Brasil existe até hoje e a SBCJ cada vez mais forte, talvez seja a principal e a mais poderosa Sociedade de Especialidade em funcionamento no Brasil; com suas regionais, toma o lugar dos antigos Clubes do Joelho que foram fundados em muitas cidades. Neste período foram realizados três Cogressos Nacionais – São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

A terceira diretoria eleita em 1988 teve como Presidente Gilberto Camanho e contava com Neylor Lasmar, Wilson Mello Alves Jr., Ricardo Navarro e Romeu Krause.
 

 

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